O estimado medo
A minha coragem
some, invariavelmente, ao
iniciar a viagem:
mão à palmatória,
tiro a máscara e rezo
a jaculatória.
Bem conheço o enredo
que deu certo e assim conservo,
orgulhoso, o medo.
O estimado medo
A minha coragem
some, invariavelmente, ao
iniciar a viagem:
mão à palmatória,
tiro a máscara e rezo
a jaculatória.
Bem conheço o enredo
que deu certo e assim conservo,
orgulhoso, o medo.
Deste silêncio não gosto
Havia, sim, o que fazer
tinham, porém, que pactuar.
Não buscaram entender,
depois, sequer, perdoar.
A vingança agora ataca
atinge um querido em cheio
sou forçado a ser estaca
suporte, mas mudo e frio.
Foi decidido assim
até o cooptaram com brilho
que se volta contra mim
se um outro caminho trilho.
Ninguém concede o direito
é necessária a luta
esta inércia não aceito
sou afeito à disputa.
Através da luta, o acordo
no entendimento aposto
civilizado, não mordo
deste silêncio não gosto.
A voz de tia Emany
Subitamente, parei
extasiado! O ouvido,
logo em seguida, apurei
pela entoação atraído.
A primeira vez que ouvi
a canção que tia Emany
cantava com sua voz rara
me encantei logo de cara.
Sá Mariquinha, a rancheira
que ela com graça e sotaque
mostrou, recordo, os Vieira
aplaudiram com destaque.
No sítio a circunstância
que mais chamou a atenção
foi pra mim de relevância
estética e vibração.
Dizem-se patriotas
e o que vemos é que são
veros lambe-botas
do meliante mor
o pedófilo do norte
o vil malfeitor.
Da pátria traidores
sem vergonhas vendilhões
da raça os piores.
Uma malta de bichos
peçonhentos, ratazanas
que andam nos lixos.
A nação consciente
agora despreza a escória
que expolia e mente.
Pepê, o Hulk Esmaga
Eu sou o Hulk Esmaga
Não tem pra ninguém
Minha força apaga
Quem não for do bem!
Raiva, não me faça
– Bandido do mal!–
Dou fim à sua raça
Com golpe fatal.
Devagar não ando
Eu só sei correr
Mas de vez em quando
Ando pra comer.
Só de picolé
Que eu, o Esmaga, gosto
E sabe de que é?
Não sabe, aposto!
De uva e de chiclete
Gosto pra valer
Derrubo até sete
Se assisto TV.
A recusa
Espero o elogio
ao poema que postei.
Uso um certo ardil
que talvez convença:
vou esperando disfarçado
de indiferença.
Um vazio brutal.
Urge me refazer da
recusa virtual.
O viajante e a lombar
Se é da nossa alma o agrado
ela fica onde se enfeitiça
seja nas ruas de Belgrado
ou de Zagreb se o belo a atiça.
Olhando os bosques de Tirana
tão bonitos e verdejantes,
desses espaços sempre emana
tranquilidade aos viajantes.
O Mar Adriático em Zadar
o Lago Ohrid na Macedônia
são paisagens de deslumbrar
e contemplar sem parcimônia.
A natureza é dadivosa,
ao viajante: admirar, manjar
bater pernas... ser tudo rosa
porém, urge ter boa a lombar.
Pais e filhos – vida e arte
Os pais querem acertar,
não são, porém, infalíveis;
vão, por vezes, errar,
que sejam, ao menos, críveis.
Porque os filhos confrontam
com gestos acusadores
seus velhos, e como aprontam!
Não sentem da lida as dores.
Quase incondicionalmente
os pais cuidam, querem bem.
Os jovens, frequentemente,
buscam o que lhes convém.
Instalados os conflitos
que em tempo vão se estender
lamúrias, sussurros, gritos
alí fundam o desprazer.
Mas há o eterno retorno
dizia Nietzsche, o pensador
se hoje é do pai o transtorno
filho será genitor.
Assim é a história do mundo
e seu traço em toda parte
o homem, no entanto, é fecundo
com ele cria vida e arte.
***
Pais e Filhos – Ciclos de Luz e Sombra
Os pais tentam sem ter plano
acertar no que lhes cabe
podem errar, por engano,
mas o amor jamais se acabe.
Os filhos, em seu fulgor,
julgam-se além do legado
não veem, no seu vigor,
o elo por eles quebrado.
Quase sempre, os pais amparam,
mesmo a alma já ferida;
os filhos, no que apregoam,
traçam rota não sentida.
Quando a discórdia se instala
e o tempo a faz crescer,
cada um na sua fala
desfia o seu padecer.
Mas o tempo é um rio,
— como Heráclito ensina —
e o filho, antes tão frio,
será um dia a sua sina.
Assim gira a existência,
nesse eterno renascer:
na dor e na resistência,
o homem forja pra vencer.
Capturando os problemas de relacionamento entre alguns conhecidos e seus filhos, que são os nossos mesmos problemas, fui dar em Pais e Filhos de Turguêniev que me inspirou a criar esse poema.