A beleza é pra ser vista
e, se vista, admirada
com a maestria do artista
que quando a vê não degrada.
Se o artista tem o ofício
de produzir a beleza,
descobrir não é difícil
o do belo – a sutileza:
Hai-kais e poemas de Caíque Vieira
A beleza é pra ser vista
e, se vista, admirada
com a maestria do artista
que quando a vê não degrada.
Se o artista tem o ofício
de produzir a beleza,
descobrir não é difícil
o do belo – a sutileza:
Sunrise Bossa
At the corner café, my old chair stays
A folded paper, the date worn thin
I point to a photograph from those days
And tell you where the songs begin
The baker still knows every name
The sea keeps time against the pier
We trade old stories without blame
And make a little room for here
Come sit awhile, remember with me
Not to return, but to understand
What we have lost, what we can still be
A place rebuilt by an open hand
Our friend left with a suitcase brown
His mother saved his letters tied
Years made their way through this small town
Still, nobody let the truth subside
Come sit awhile, remember with me
Not to return, but to understand
What we have lost, what we can still be
A place rebuilt by an open hand
The coffee cools; the evening leans
You leave the photograph with me
And in its crease, between the scenes
A road goes on beside the sea
Tradução
No café da esquina, minha velha cadeira permanece
Um papel dobrado, a data já gasta
Aponto para uma fotografia daqueles dias
E te conto onde as canções começam
O padeiro ainda sabe cada nome
O mar marca o tempo contra o cais
Trocamos velhas histórias sem culpa
E abrimos um pequeno espaço para este lugar
Venha sentar-se um pouco e relembrar comigo
Não para voltar, mas para compreender
O que perdemos, o que ainda podemos ser
Um lugar reconstruído por uma mão aberta
Nosso amigo partiu com uma mala marrom
A mãe guardou as cartas do filho, amarradas
Os anos abriram caminho por esta pequena cidade
Ainda assim, ninguém deixou a verdade esmorecer
Venha sentar-se um pouco e relembrar comigo
Não para voltar, mas para compreender
O que perdemos, o que ainda podemos ser
Um lugar reconstruído por uma mão aberta
O café esfria; o anoitecer se inclina
Você deixa a fotografia comigo
E na sua dobra, entre as cenas
Uma estrada segue ao lado do mar.
Mensagem
A mensagem central da letra é: lembrar o passado não para voltar a ele, mas para compreendê-lo e reconstruir o que ainda é possível.
Ela fala de memória, perda, passagem do tempo e reconstrução. O eu lírico convida alguém a sentar e recordar, mas deixa claro que o objetivo não é nostalgia paralisante:
“Não para voltar, mas para compreender o que perdemos e o que ainda podemos ser.”
Outros pontos importantes:
· Memória coletiva e pessoal: o café, a cadeira, o padeiro, o mar, o cais e as histórias antigas mostram uma comunidade que preserva seus laços e sua história.
· Perda e ausência: o amigo que partiu com a mala marrom e as cartas guardadas pela mãe representam alguém que se foi, mas cuja memória e verdade continuam vivas.
· Reconciliação sem culpa: “Trocamos velhas histórias sem culpa” sugere superar mágoas e olhar o passado com mais compreensão.
· Reconstrução com abertura: “Um lugar reconstruído por uma mão aberta” indica que a reconstrução — de uma vida, de uma cidade, de uma comunidade — acontece pela generosidade, acolhimento e disposição de olhar para o outro.
· Continuidade: no fim, o café esfria, a noite chega, a foto fica, mas “uma estrada segue ao lado do mar”. A vida continua, e o caminho permanece aberto.
Resumindo: a música diz que podemos honrar o que perdemos, manter viva a verdade e seguir adiante, reconstruindo o presente com memória, aceitação e abertura — não com apego ao que já não pode voltar.
Saudade do Brasil
Com certa nostalgia
Penso em outro Brasil
Onde havia a alegria
De uma gente juvenil
Lá nos anos cinquenta
O país já parece
Uma promessa e ostenta
Campeões, bom alicerce.
Mas veio a noite obtusa
A escuridão do breu
Que a nossa vida cruza
E o povo emudeceu.
Voltamos a cantar
Mas por breve intervalo
É urgente exorcizar
Quem quer cantar de galo.
Sob o olhar de Teresinha
Para que a fé não desista,
nunca deixe meu coração,
seja minha alma altruísta
e com uma humilde oração
à nossa Santinha insista,
com esperança, no pedido
de ter no horizonte à vista
a cura do filho querido.
A fé, hesitante, ia e vinha,
mas sob o olhar de Teresinha,
Santa do Menino Jesus,
ora em certeza se traduz.
Os dias vão gotejando
nas semanas, estas nos meses
que em anos vão se transformando,
e a gente se dá conta às vezes
quando já é tarde na vida,
os cabelos brancos ao espelho
e várias rugas em seguida,
que se tornou de vez um velho.
Vai no álbum de fotografias
e vê que o tempo é feito traça,
corrói, sem pena ou cortesias
vãs, na medida em que ele passa.
É difícil acreditar
que sejam a mesma pessoa.
Do nosso olho, num piscar,
a juventude em nós escoa.
Criança do século passado
Nós, crianças do século passado,
Não conhecíamos o celular
O jogo, coletivo, era jogado
Na mesa, no chão, em qualquer lugar.
O melhor era estar junto e brincar
É o que criança tem que fazer
Nada de aparelhos e se enfurnar
É o que faz criança entristecer.
A infância era sol, poeira e corrida,
Com pega-pega e bola na calçada,
Uma risada livre e divertida
Sem precisar bateria carregada.
Respirar ar puro e inventar o dia
Faz da vida um eterno aprender,
Pois a verdadeira e pura alegria
A gente encontra mesmo ao viver.