Mônica
Jovem da fuzarca
em outros ares se torna
a alegre matriarca.
Hai-kais e poemas de Caíque Vieira
Criança do século passado
Nós, crianças do século passado,
Não conhecíamos o celular
O jogo, coletivo, era jogado
Na mesa, no chão, em qualquer lugar.
O melhor era estar junto e brincar
É o que criança tem que fazer
Nada de aparelhos e se enfurnar
É o que faz criança entristecer.
A infância era sol, poeira e corrida,
Com pega-pega e bola na calçada,
Uma risada livre e divertida
Sem precisar bateria carregada.
Respirar ar puro e inventar o dia
Faz da vida um eterno aprender,
Pois a verdadeira e pura alegria
A gente encontra mesmo ao viver.
A vida nos convida
Vamos agora tomar um banho de mar
No final do dia aproveitar
Às seis se põe o sol
Pegue o frescobol
Sai logo do lençol
E vamos lá
Há uma boa ciclovia até lá
Ou podemos ir mesmo a pé
Tudo está a calhar
Pra o que se quiser
O sol está ameno
O mar sereno
É preciso saber viver
A vida boa se oferece
Nas coisas simples a escolher
Passear a pé é feito uma prece
Ante a rotina de correr
Amanhã há de ser outro dia
E a vida nos convida a viver
Deixa o coração escolher
O que traz alegria
Que o melhor ainda está por vir
Um dia para esquecer
Há dias que nem é bom lembrar
O melhor seria esquecer
Mas se esquecer, como superar?
Temos mesmo é que enfrentar
A dor tornando a doer
Porque ela tem a nos ensinar.
Não, não é masoquismo
Mas é menos sofrer
De olho no estoicismo
Na plenitude de viver
Sabemos: a vida é sofrimento,
Mas sabemos que ela vale a pena,
Pois o instante feliz é o unguento.
O Galgo
Tem nesta criatura algo
que me toca em certa instância,
a da virtude, o Galgo
traz em si a elegância
que busco em tudo quanto há:
música, poema e espaços…
os homens, em geral, já
a perderam, os seus traços
mais medonhos se revelam
nesses tempos hodiernos
da pós verdade, e selam
o que ontem foram infernos:
fascismo, extrema direita.
Bajula-se genocida,
tola, a turba aplaude e aceita
pedófilo, infanticida.
Observo este Galgo amiúde
que evoca em mim a elegância
e se ainda não é virtude,
tem a mesma substância.
Voo de balão
O medo do voo de balão
Só superei depois da emoção
De voar com os passarinhos
Da Capadócia dos pergaminhos.
Embaixo estavam, na falésia,
Grutas dos membros da eclésia
Intactas e conservadas
Pelo mundo admiradas.
Voávamos com a alegria
Mas rezando à Santa Maria
Que a altura não fosse além
Que o voo aterrissasse bem.
Enfim, são e salvos chegamos
E com um bom champanhe brindamos
Mas se querem saber se repito
Não, mantenho o medo, admito.